Hábito

Chega a noite de chuva em que eu ia
entrar no seu carro correndo e ia
ouvir alguma piada sua e
riríamos juntos.

Chegaríamos na sua casa,
Ficaríamos descalços na beirada da porta,
nos cheiraríamos –
meu nariz no seu pescoço e o meu pescoço no seu nariz

E os nossos braços cheios de nossos corpos.

A casa cheia de nós dois.
Nossos risos.
Nossos ais pequenos.
Nossas brincadeiras.
Nossos cansaços.

E chega o dia em que mudo o rumo.
O discurso. E o gosto. O gosto.

E o que era hábito – fica sem corpo.

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Não é rebeldia.

                Um dia você acorda e duvida de tudo o que aprendeu, duvida dos dedos que te foram apontados, das besteiras que fez, das orações que fez aos pés da cama e dos altares em que se ajoelhou, duvida dos beijos que deu, duvida dos meninos e das meninas. Duvida dos seus professores e dos seus pais. Duvida dos seus mestres, dos seus deuses, duvida do escuro do espaço, duvida de você mesmo. E se sente pequeno e descobre que se sentir assim é normal, e não é crime, e é até certo: somos realmente pequenos, mas juntos somos gigantescos. E começa a procurar quem duvide contigo. E vai começar a construir certezas que façam sentido – que sejam realmente verdadeiras.

                Não é rebeldia, isso é depois da rebeldia. É uma dúvida calma, é o olhar de um cientista apaixonado pela vida, é um mar revolto de correntes. Não é negação. É questionamento: você, um dia, decide descobrir o mundo por você mesmo, decide por em questão tudo o que foi dito, decide limpar suas prateleiras de recomendações e arrumá-las por você mesmo. Decide olhar a validade dos frascos dos conselhos. Podem dizer por aí que é egoísmo. Eu me atrevo a dizer que é libertação e é maravilhoso e é difícil.

                Primeiro é atravessar a rua sozinho. O desafio é saboroso e perigoso. Depois de descobrir que somos responsáveis por tudo o que causamos nos outros e em nós mesmos, descobrimos o perigo. E é realmente delicioso e perigoso.

É olhar os animais de dentro da floresta, não no zoológico. É pular no rio escuro, no meio da noite, porque só colocar os pés na beirada da água já não serve mais. É fazer a história e não só lê-la e ouvi-la nos livros. E você entende que “fazer história” não é nada tão grandioso perante os outros, mas é monumental dentro de você. Fazer história é um vagaroso lembrar-se das suas paixões. É viver devagar e cuidar de ser genuíno com você e com o mundo, e entende que mentira é algo que você não quer viver. Você não quer comprar mentira, não quer comer mentira, não quer rir de mentira, não quer beijar e deitar com mentiras, não quer desejar mentiras.

É descobrir o que é mentira, o que é aparência e o que é real pro seu coração, e o que faz sentido. E fazer história é um assumir de queixo erguido seu lugar, seu ponto de vista, e mesmo assim falar de certa forma mansa e direta, e aceitar algumas perdas importantes por causa disso. É chorar de peito aberto, e talvez seja também o aprender a pedir perdão, uma das coisas mais difíceis. Ainda somos orgulhosos e fazer sentido é também reconhecer que alguns dos caminhos que escolheremos estavam errados – e teremos que, às vezes, assumir violentamente as consequências por causa desses erros. E que isso também é estranhamente libertador.

Um dia você acorda e quer ser coerente e quer fazer o bem, para os outros e para você mesmo e quer que seu coração pulse certo enquanto tiver que pulsar. Você acorda e misteriosamente parece que cresceu uns dois ou três centímetros – foi a sua postura que mudou, você não se curva, não se esconde mais. Você parece ter o rosto mais certo no espelho, e encara mais de frente, e fala mais claro. E não sabe como vai fazer pra chegar onde quer chegar, mas que caminhar vai ser cansativo e vai ser uma delícia e vai ser difícil e está pronto pra isso.

E de repente nesse dia você também percebe que raízes são preciosas. Um dia você descobre também que seus pais – que te aconselharam, e de quem você duvida, às vezes – que eles também duvidaram. E os olha mais de perto, com olhos mais humanos e percebe como eles se aproximaram ou se afastaram de muito que queriam. Percebe o quanto eles conquistaram, com o que eles se contentam. E às vezes fica mais fácil entende-los. Ou muito mais difícil. E se admira de perceber que talvez algumas reações suas – além dos olhos, do sorriso, da covinha, da voz – talvez sejam fruto da genética. E você não os julgará porque entende o valor do passado e põe o valor do passado de volta na prateleira dos valores e dos conselhos – esse remédio não tem validade.

Talvez você vislumbre que terá que mudar um pouco seus planos e também está tudo bem. Viver é dançar e não se dança sozinho. Você quer aprender e absorver que você também é aqueles a quem se mistura. Você deixa o medo das mágoas de lado, você tem mais calma, você aprende a dividir. As pessoas que você permite entrar na sua vida, nos seus olhos, nos seus pensamentos e no seu ninho: elas vão pulsar da mesma maneira que você e é isso que vocês irão buscar e isso significa adaptar os planos, não mudar as direções – e vai descobrir que se vocês não querem dividir sorrisos matinais e refeições de mentira, que o resto é libertador o bastante para descobrir suas próprias respostas e suas próprias maneiras de amar, e seus próprios apelidos e carinhos. Que amar é libertador e não tem nada a ver com dias parados e falta de criatividade, mas com muita mágica e colorido impressionante dentro da realidade.

Um dia você entende que mais pessoas buscam as mesmas coisas, e percebe quando é mentira, e também o fato de ser mentira é apenas uma questão de tempo, elas apenas ainda não acordaram nesse mesmo dia. Você aprende a ser paciente e a dar a cada um seu peso e sua medida.

E talvez um dia todos nós entendamos que o importante é a qualidade do que vivemos nas 24 horas que temos em cada dia que acordamos e a energia que deixamos em cada lugar onde vamos. E que o mais importante de se ter um objetivo é sempre ter porque caminhar. Porque o caminhar é de costas retas, sem ter porque se esconder e é de cara limpa e é fazendo o bem e é fazendo certo.

Andes

 

Farol verde

Ele fala sobre

Cantos escondidos e olhares

 

As listras no asfalto

Apenas grades de salvação

(apoio para solas de sapato)

 

A fotografia que tiro

Agora é monótona

É cidade

            É sempre a mesma

Mas nunca é a mesma

 

E já estamos salvos.

Farol amarelo,

Ele fala sobre despedidas

E eu penso em cacos

E em bebidas.

 

– quando ao afastarmos

Nossos pés – apenas empurramos

A terra que nos apóia.

 

Farol vermelho

E nossos calcanhares se beijam.

A quantidade de terra

Que nossos passos empurram

Cria entre nós

Uma cordilheira.

São Paulo

São paulo, minha declaração desvelada de amor por você. Eu suporto o tráfego. Suporto o movimento. A cegueira alheia. Suporto a poluição. E até as noites de solidão. Sua companhia me basta hoje. 

Sobre os encontros que se descobrem – mas sempre foram encontros.

“O outro que eu imagino é um pássaro preso na gaiola do meu peito. E vai voar. E se não voar vai morrer.
Não é a expectativa que eu crio.”

É o mundo que eu vi e você também viu. É tudo o que vimos e o que queremos ver em nós mesmos. É o mundo que você vê e eu também vejo, os lugares que posso visitar em você. Os lugares que posso viajar com você. Os lugares onde deixamos de ir para ir a outros lugares.
Somos amigos de longa data sem nunca termos nos visto antes e já visitamos os mesmos lugares – lugares que não existem nos mapas.
Jogamos taco, sem nunca ter passado nas mesmas ruas e nem mesmo ter olhado para o rosto das mesmas crianças. E aprendemos a frear o carrinho de rolimã com a borracha dos pés, você de all star e eu de bamba. Brincamos de esconde-esconde e caímos e ficamos pra trás e nunca mais fomos achados. Desenhávamos e desenhamos e levamos isso a sério. Gostamos do que nossas mãos e nossas ideias  produzem quando trabalham juntas. Gostamos de deitar no asfalto e na calçada, e gostamos de ficar descalços. Lembramos do som da viola e isso nos agrada. Junho e julho, festa junina, sujeira na planta do pé por causa da fuligem que se acumulou no quintal é meninice pra nós.

Gostamos de ver como nossas peles são jovens e gostamos de aproveitar como nossas peles são frescas e gostamos de tentar. Gostamos de observar como nossos pés tocam o chão e como nossos rostos se tocam quando dançamos – como eu respondo ao seu comando e como você decide me levar – onde decide me levar. É uma delícia como os nossos corpos falam, como nossas mãos reagem quando nossas palavras calam. Gostamos de ouvir o que dizemos quando estamos em silêncio. É a potência do que se cria quando estamos juntos – não é uma ideia. É real – existe quando estamos juntos. Olhamos nos nossos olhos e vemos além das cores. E também gostamos do arco-íris que surge em milhões de versões de nós mesmos – conseguimos enxergar através das cores das nossas íris. Inventamos mundos e visitamos a ambos – sem nunca termos nos encontrado antes.
Não é a expectativa que eu crio – e hoje eu evito. Nem de longe é isso.
É o mundo que eu divido sem dizer que está dividido – o que eu deixo sem me fazer a mínima falta e o que tenho de você e você me oferece sem doer. E é tudo o que eu pude conhecer de você sem pedir, sem querer, sem fazer força. É tudo o que podemos ter do outro e que nunca nos fará falta, a não ser a presença.
É aquilo que dura e permanece.

O que ainda não foi escrito

Caro,

Mil perdões por este atraso; é despropositado meio que com propósito. Estive à procura de vícios e manias, fascínios que falassem por mim. Encontro-os aos montes, mas vestem apenas os outros, nunca cabem nos meus quadris, nunca servem ao meu corpo, meus trejeitos. Acabo por achar certo vazio em cada história que vejo que ouço que poderia, por acaso, ter sido minha, bem minha. Vou nesse desassossego constante de peito em prece, mãos juntas, mas não clamo – alto não, nem para os outros verem. É coisa sussurrada. Curiosa, arquejando sem perceber, vou escavando tudo o que vejo, assoprando o pó, inquirindo às paisagens humanas com os olhos grandes e o cenho franzido: parece que perguntam ao maquinário, ao estradio, ao arvoredo, ao ajuntamento: me esqueço de ser humana – sou povo. Só não me esqueço quando o estômago ralha, entre tantas outras que vêm do corpo, encontro de novo falha e me incomodo – volto à grotesca condição primitiva de ter entranhas e instintos. Me alimento de histórias, meu caro. Depois de uma busca (a primeira séria entre tantas outras que farei) encontro minha mania, essa sim, é minha – eu leio. Leio e esqueço – esqueço até do que eu mesma escrevo. Para adotar feições estranhas, contrair o rosto todo, pensar e julgar o mundo de outras formas – ou sem forma. É isso: quanto mais eu leio, quanto mais me afundo em imagens feitas por letras, mais me perco – essa é minha mania, meu caro – eu leio tudo, leio até o que nunca foi escrito – e continuo me perdendo.

As crises necessárias, as pretensões e as ideias aladas

Não sei em qual conta pendurar a força que alimenta minhas inspirações, são tantas as contas. São tantos “deus-lhe-pague” que vou distribuindo por papéis e telas.  Mal sei por qual canto desse terreno começar a preencher de passos e nem mesmo sei se esse terreno possui limites ou de que matéria é feito e se de fato posso pisoteá-lo; se de terra ou aço, água, pele, conchas, couros, pedras, ossos, cabelos, cores, aromas, cores, sabores. Gosto de pensar que não tem. Me divirto com a liberdade de poder expandi-lo ao meu bel prazer e depositá-lo em coisas e mãos diferentes, que mal sabem ser motivo do meu olhar atrevido e gatilho do meu imaginário (é deliciosa a sensação de possuir um objeto de inspiração que não sabe que é motivo de meus ais).

– O cachorro novo e desobediente conduzindo a mulher cega impaciente. A flor que pousa na borboleta. O jeito que ele me olhou e o que ele me disse quando não disse (é incrível como o silêncio permanece cheio de ruídos). A curva que a língua fez quando aquela palavra foi dita  e como os ombros se encolheram junto das sobrancelhas encolhendo toda a frase seguinte. Uma música nova ou lugares que nunca visitei, mesmo que sejam contados. –

Assim vai rodando minha engrenagem, nos dias em que alguma força mantém meus olhos atentos. São lentes que não escolho colocar: elas simplesmente fazem parte de mim. Desde pequena sinto o cheiro das coisas, observo com uma dedicação especial os gestos das pessoas, os tiques nervosos, a intensidade das vozes, as esquadrinho mais que as julgo, as percebo, sinto o mundo ao meu redor, absorvo seus estímulos (sejam eles bons ou ruins). De onde foi que surgiu esse arroubo de brincar com o que já existe e escarafunchar dobrar, amassar, rasurar, passar a limpo, revirar, até querer enfiar meus olhos e tudo o que vejo e penso nos olhos dos outros? Pretensão. Eu devo ser muito pretensiosa. Quem escreve – e expõe – deve ser pretensioso.

Pretensões à parte, também me faz lembrar quando comecei a escrever e que por mais óbvio que fosse falar dessa maneira agora, estava ali o papel inocente como eu, nós dois amigos. Sinceros. E mais ninguém. Na época em que somos pura vergonha e queremos ser e ter os mesmos moletons, estojos, sapatos e mochilas que os nossos colegas de classe, o papel ali, rosa, dentro do diário fechado com o cadeado que eu abria com o grampo de cabelo de minha mãe, estava ele ali sem esperar que eu agisse de acordo com os coleguinhas. Ali, com ele, eu era quem eu era. Boba, desajeitada e cheia de paixonites. E ele foi o meu amigo, a minha percepção de mim mesma e do nome das coisas que eu sentia, a noção da diferença entre eu e “eles”. E como selo dessa cumplicidade, foi por meio delas (das palavras) que me conheceram e por elas me fiz entender: daquelas que escrevi no papel mesmo, um pouco mais tarde.

Selamos assim a nossa amizade eterna ou nosso caso de amor, seja lá o que for, o papel e eu (assim espero, às vezes nos viramos as caras). Com as letras posso escolher se tenho ou não tenho máscaras. Posso brincar com meus medos. Posso estar errada e ser exagerada, há perdão. Eu rio depois que leio. E o único julgamento que existe, por enquanto, aqui, enquanto eu mesma escrevo e ninguém ainda me leu nas curvinhas dessas letras, o único julgamento que existe é o meu. E quem é que não relê o que escreve e se julga?

Mesmo assim, para não ser cansativa, (não para os outros, mas para mim), nunca paro de buscar (creio eu). Coisa minha, acho. Busco maneiras novas de falar, alguém ou coisas que me levem a pensar de jeitos diferentes. Coisas fantásticas de ver e ouvir, coisas que me façam sentir o coração pulsar nervoso de ansiedade ou puro enlevo. E ao ler outras coisas fantásticas costumo querer alcançar aqueles monstros que escrevem com tanta maestria. Como sou pretensiosa. Cheia de alegorias para a vida, tudo o que vejo se mistura num caleidoscópio de tudo o que já “vi”. Somos uma luneta com experiências de diferentes cores e intensidades e em constante movimento: refletimos nossas íris ao mundo. Será que vem daí a necessidade de escrever? Trocar experiências? Não pode ser. Muito raso. Muito prático. Será que a inspiração é uma constante e não uma necessidade? Não, a inspiração é feito um caso novo de amor: ela acontece e não podemos coordená-la ou contê-la. Ela tem vida própria, se enraíza, se enoza, cria ninhos de ideias, ideas que criam asas e aprendem a voar somente quando atiradas no ar. E esse mundo (há por acaso alguma outra maneira de falar do mundo?) me parece um laboratório/observatório constantemente oferecendo dedos em forma de ganchos que me puxem um gatilho, que me façam o favor de disparar a bala das imagens. Que sejam ideias aladas, de asas certas e que explorem o afã da rapina em céus altos, que dêem rasantes a cada impulso violento e silencioso das penas mais leves, que sejam capazes de vislumbrar lugares novos. Novos e não necessariamente “belos”. Novos para mim. Nem sempre novos para os outros. Nem sempre belos para os outros.

A vontade de escrever e a inspiração talvez venham do vislumbre de poder visitar esses lugares que achamos serem incríveis e mesmo assim alcançáveis e ter a vantagem de não precisar permanecer neles: isso estragaria a mornidão deliciosa da realidade. O que o mundo das ideias faz com a realidade é mágica pura. A visão desses lugares novos talvez seja tão inacreditável e as conexões às vezes tão simples que é provável querer companhia para enxergar ou para mostrar (olha, veja isso!), como se ver um filme e não ter com quem comentar fosse a maior sensação de solidão que pudesse existir.  E por isso contamos. E por isso mostramos aos outros como é o nosso olhar. Por isso as musas são dedos em seu gatilho. Por isso a sensação que temos de dividir com algum eco de nós mesmos que parece nos entender em toda e qualquer esfera e elevar nossos pensamentos à potência infinita. Temos essa mania de infinito. De permanecer. De perpetuar. Costumo visitar a sensação de que criar como criamos nos aproxima de Deus, e mais uma vez somos pretensiosos. Mas também somos eternos. Contar aos outros tudo o que é visto, as conexões feitas, e que essas paisagens e linguagens pudessem dançar e que nunca me faltasse vocabulário e novas maneiras de dizer tudo o que já foi dito. Deve existir um bar no mundo das ideias que todo e santo escritor já visitou, um vinho que qualquer romântico no campo das ideias já tomou e um beijo que qualquer doente de saudade já desejou. O mundo das ideias se mistura ao mundo das sensações e as dores são provavelmente parecidas. A diferença é o que causam em nós e o quanto as achamos divisíveis, dignas de serem lidas, o valor que damos a elas, porque as achamos válidas. Quem nos ensinou a não ignorá-las?

Talvez sejamos ganchos ligando fios soltos do mundo, talvez sejamos nós de corda. Talvez acreditemos que o mundo não possui horizontes finitos. Gosto de estendê-los, alonga-los, de provar (mesmo que seja uma das tarefas mais difíceis que existam para as mulheres) que o meu mundo não tem horizontes alcançáveis – porque quanto mais caminho, mais os horizontes se estendem e jamais são finitos. De me fazer soberana no território das minhas inspirações. De mandar e desmandar nos territórios conquistados (como se fosse possível, e tudo na vida continua assim, eco do eco: qual é o imperador que possui controle sobre o coração dos povos conquistados? Nossas ideias possuem vida própria, possuem organismos) Esse lugar que as ideias visitam talvez não tenha paredes, mas é um lugar exato que conhecemos, talvez, ao mesmo tempo. Também não sei se escrevo para alguém. Talvez. Talvez esse alguém seja composto de fragmentos retirados do mundo, e seja outra versão de mim mesma que eu queira alcançar. Talvez esse alguém seja a outra versão de mim mesma que eu queira alcançar ou a intenção de driblar a mim mesma. Quem é que sabe?
Prefiro continuar sendo a arma que atira ideias aladas ao mundo, ideias que achamos válidas, de olhos em olhos, aos corações disponíveis e atentos, fazendo o possível para existir com um pouco mais de beleza nesse mundo que é tão pesado e cinza.

Beleza põe a mesa. Ah, põe. Essa do dia-a-dia, essa põe a mesa, lava os pés, faz a cama, traz café. E que nunca nos falte o que chamar de belo.

Sobre detalhes e lentes

A exata curva funda que a carne dos seus dedos desenha ao redor das unhas. A cutícula que revela a transição entre unha e dedo. A maneira como ele escolhe (e com qual mão escolhe, intuitivamente, enquanto fala comigo com os lábios que só faço observar o abrir e o fechar) pegar a colher de inox: estende os dois dedos em forma de pinça, automático. Enquanto continua a abrir e a fechar os lábios, fecha a gaveta com a outra mão. Sorri e sacode, sem perceber, o bojo da colher no ar, antes de pousá-la no pó branco granulado, escolher a quantidade certa que adoçará o seu café, e sua boca ainda se movimenta, o verniz de sua língua úmida se esconde em intervalos desconexos. A despretensão com que mistura o branco açúcar com o negro do café pelando, rendendo-se aos poucos, sem notar, ao efeito que o aroma suavemente pesa-lhe sobre os olhos e arregaça-lhe as covinhas fazendo com que mostre os dentes. Ele fecha os olhos e sorri, mas fala de outra coisa. Ele, sem falar, está ali. Despretensiosamente adoçando seu café.

                O lóbulo das orelhas, pequenos. O final do maxilar rotundo e pronunciado, mal vestido da barba rala e seus dedos disfarçados de pensamento a contornar suas adjacências – ele sente aos pontas endurecidas dos fios grossos entre as unhas e a carne, e a polpa cheia dos dedos na pele fina da base do pescoço – onde se mostram os nervos, as pintas e os ossos. A alça da bolsa a pender de seus ombros, atando-o ao mundo, assim como a camiseta. E suas mãos pálidas a transitar entre o lóbulo solitário de sua orelha, que quase nada ouve e a alça da bolsa, sem se decidir entre o ficar e o ir. As estrias que cria sua camiseta com o peso do ir. Algo o incomoda e talvez nem ele saiba o que é. Tampouco eu. A maneira como escolhe dizer qualquer coisa para dissimular qualquer contratempo que lhe surgiu na retina que de pronto se dilatou – e eu provavelmente não vi. Seu silêncio súbito. A maneira como escolheu tornar seus ombros, em linha reta, paralelos à linha da mesa e tombá-los fazendo com seu peito um pergaminho quase a se enrolar em si mesmo. Seus ombros perpendiculares aos meus. Suas mãos em seu pescoço, a rodear o ir e o ficar. Seus olhos me desfocam e focam sua outra mão, nodosa e cheia de veias, pousada sobre o copo de cerveja suado e quase vazio, a marca suada do copo na mesa de madeira, a palma aberta de sua mão, que distraída como a outra, tenta limpar algo que não é possível limpar: a impressão de descuido que deixou em mim. Ele, sem querer está ali, prestes a sair. 

Favor

Eu ia te pedir um favor.
Desisti quando passei em frente a sua casa. Hesitei por cinco segundos divididos em quatro passos bem miúdos, bem olhados no chão e então enfiei as mãos nos bolsos da jaqueta e apressei o fim do portão.